"Eu cobria a minha incerteza com um olhar firme, com uma máscara de determinação fingida. (...) Quando ela terminou de tocar, ao ver-me, o seu rosto transformou-se porque percebeu logo. Então, de repente, as palavras em que pensei durante toda a manhã da oficina, durante todo o caminho, as palavras com que acordei. Ao seu rosto, de repente, não soube dizer senão as palavras brutas, únicas, impossíveis, gastas por tantas vezes que as repeti na cabeça, perpétuas, como espinhos, como lanças, feitas de pedra, feitas de noite, feitas de inverno, últimas em cada sílaba, inevitáveis depois de pronunciadas, a separarem a carne dos ossos, mortas, mortas, a morrerem, a matarem, a cobrirem o mundo todo com a escuridão absoluta da sua própria morte. A última vez que nos víamos. Disse-lhe que era a última vez que nos víamos. O seu olhar feriu-se de mágoa. O silêncio. Depois de não acreditar, lágrimas: claridade líquida, límpida, vítrea. Caminhou até à janela, virou-me as costas e ficou parada diante do resto frio e branco da manhã. O seu corpo a escorrer com o vestido sobre o tapete. Caminhei para ela. Pousei-lhe as mãos sobre os ombros
nunca chegará a última vez
e não lhe disse nada. Esperei que as minhas mãos, apenas o peso e o toque das minhas mãos, pudessem dizer-lhe tudo o que era verdadeiro e não tinha nome. A última vez que nos víamos: cada gesto, cada momento. Ela voltou-se de novo para mim e olhámo-nos com a força de, por um instante, sermos capazes de acreditar que nenhum deus seria capaz de separar-nos. Logo a seguir, numa certeza que se espetou contra nós, muito maior do que um instante, soubemos que iríamos separar-nos mesmo. Era a última vez que nos víamos. Tudo era último. Ela caiu-me dentro dos braços. Apertei o seu tronco, esmaguei-o. Pousámos as cabeças nos ombros um do outro: as faces a tocarem-se: lágrimas quentes. Passou tempo. Afastámo-nos para nos vermos. Partilhámos um olhar. (...) E os nossos corpos. E a luz branca sobre nós. (...) Não tínhamos palavras. Tínhamos silêncio. Tínhamos as nossas respirações e aquilo que víamos, subitamente real. Tínhamos o tempo a trazer-nos de novo a verdade e a tristeza. Ela não se levantou, não caminhou nua, não se sentou ao piano. Continuou deitada, sem forças, sem vida: o olhar desfeito. Eu levantei-me. Vesti-me devagar. As roupas não saravam as feridas do meu corpo rasgado. A última vez que nos víamos. Caminhei para a porta do salão, deixando-a deitada sobre o tapete, sem olhar para trás. (...) O rosto dela acreditou que ia voltar, ia dar os passos de volta até aos seus braços, até ao seu corpo nu e abandonado. Não voltei."
José Luís Peixoto in Cemitério de Pianos